Um novo oceano!

Essa semana foi de bons ventos, e viajamos muitas léguas até que chegamos a um novo oceano. Na verdade, um encontro de duas águas, saímos do Mar de Café e estamos entranto no Rio dos Valores.
Essa junção é realmente algo interessante, pois de alguma forma o Rio é despejado no Mar...
Estava discutindo ontem com um amigo, e chegamos à seguinte conclusão: cada um constrói o próprio mundo, e em cada mundo individual alguns conceitos como aquilo que é bom, ou os objetivos, são diferentes.
Mas, sim, existem tendências... e uma tendência que muito preocupa é a falta de valor que se dá ao esforço, à disciplina... Vivemos num mundo em que as pessoas tidas como exemplos são aquelas que praticam o ócio.
Estão por toda parte... revistas, televisão, jornais... Ricos, famosos, idolatrados, não por seus talentos, feitos, mas simplesmente por serem ricos, famosos e idolatrados. Valor dado ao trabalhador? Não passa de ilusão, coisa de campanha política e discurso de boteco. No dia a dia o que vale mesmo é o Big Brother, as últimas fofocas dos globais e suas festinhas.
Sim... esse é o mundo onde vivem muitas pessoas. Esses são os valores. A fama sem motivo, o dinheiro sem suor. Esses valores possuem milhares de reflexos, em todos os aspectos possíveis e imagináveis da vida das pessoas, inclusive no campo dos relacionamentos (que foi de onde surgiu esse post).

Agora... até que ponto alguém pode julgar esses valores? Se eu os considero errados e malévolos, isso se dá apenas porque meus valores são diferentes! É bem claro que essas coisas não são absolutas... o que parece certo para mim pode parecer absurdo em outra cultura/mentalidade.
Será que temos o direito de criticar a superficialidade da maioria das pessoas? Será certo tentar tirá-las da caverna para a nossa caverna?
Aí que está o furo na velha analogia da caverna... Ninguém está fora. Todos vivemos em nossas cavernas... alguns em grupos, outros sozinhos (os considerados loucos). Algumas cavernas mais amplas, outras menores... mas todos vivemos em nossas cavernas... uns julgando os outros nas vizinhanças.

Platão errado... quem diria... mas, pensando bem, isso é só porque vivemos em cavernas diferentes.

8 comentários:

João Francisco disse...

Se ninguém nunca saiu das cavernas, como enuncia Platão, então nada garante que não haja outras pessoas no mundo, em outras cavernas!

Quanto a questão, nem sei direito o que discursar. O que eu digo é isso: de repente muita coisa importante foi passada para trás por uma mera convenção da falta de praticidade ou da falta de tempo. Hoje tava vendo uma reportagem sobre famílias que estão com falta de tempo para jantar juntas. Pô, esse é o cara da minha. É algo que eu considero muito importante, mas não depende única e exclusivamente de mim. Gosto de sair com meus amigos, acho que o contato pessoal é o grande barato de um relacionamento. Hoje falei com uma amiga minha, é um absurdo que de repente nossa comunicação ficou impessoal em messengers, orkuts e e-mails. Sai mais barato do que telefonar? Sai mais barato que tirar a bunda da frente do computador e ir sair para algum lugar? Claro que sim rapaz! Mas quem quer fazer isso?

Eis a minha proposta: saíamos de nossas casas, tomemos chuva de verdade no nosso corpo, conversemos, olhemos no fundo dos olhos, de cada um que estiver disposto a isso. Morte ao café solúvel!

Abraços!

Macaeh disse...

Bem... a minha idéia de caverna é um pouco diferente... nós vemos as pessoas das outras cavernas...
É mais parecido com um óculos que distorce tudo. Todos usamos óculos, todos nos vemos, mas cada um de uma forma diferente. Alguns usam óculos de marca e acabam tendo a mesma visão =P

João Francisco disse...

Tipo o óculos da Orientação a Objetos??? 8)

Hahaha ok, off-topic total! Empolguei-me na hora de escrever o comentário! =P

Macaeh disse...

Eu também lembrei do óculos do jef... mas não pude evitar...
8)

Silent Truth disse...

"Vivemos num mundo em que as pessoas tidas como exemplos são aquelas que praticam o ócio."

Ohh Lord! estamos retornando para a Idade Média e o seu culto ao ócio da nobreza... hmm, após longos anos de Renascimento para mudar estes valores, novamente nos encontramos na mesma época de trevas.
É estranho, pq isso já foi combatido antes.... na verdade, há quem diga q o culto ao ócio está relacionado ao mundo pagão e a valorização do trabalho relaciona-se ao Cristianismo e, posteriormente, esses novos valores se perderam (algo relacionado à nobreza da I.M.)

Devemos estar condenados a repetir esta história por toda a eternidade, até que um dia encontremos um valor comum a todos, que agrade a cada um de nós em nossas cavernas (hmmm... difícil).

Mas também é complicado retirar outra pessoa de sua caverna para trazê-la para nossa, por julgar nosso pensamento mais correto, mais profundo, menos alienado... Novamente entramos na questão da subjetividade(Palomar!!): nem sempre o que é certo para nós, é certo para todos. Podemos apontar o caminho para outra caverna, mas jamais arrastar uma pessoa até ela; é uma questão de costume, ninguém (ou melhor, uma pequena minoria) está disposto a mudar tão facilmente (veja só qto tempo o Renascimento não demorou para mudar a mentalidade dos "medieválicos" =P )...

Macaeh disse...

Adorei o comentário!
Realmente, quando uma classe é dominante tanto economica quanto culturalmente acaba existindo um culto ao não fazer nada.
Nas vésperas de uma revolução, o trabalho, o povo, acaba impondo seus valores. Mas no fim acaba surgindo mais uma classe dominante e parasita... e o ciclo volta ao início...

Maelstron disse...

Acho que o jeito deve ser aprimorar a comunicação entre cavernas. Ser estático em opiniões apenas torna as relações mais complicadas. A questão não é que a comida da outra caverna é ruim, mas sim que ela pode te proporcionar momentos de felicidade, prazer, whatever...
Ao menos aceitar que os outros tem suas preferencias e isso não os torna melhores nem piores. Afinal de contas, vc provavelmente vai se relacionar com as pessoas da sua caverna, ou ao menos do seu complexo de tuneis das cavernas mais proximas. Lembrar que sua opinião é apenas mais uma dentre infinitas, e que sua caverna não é um abrigo nuclear, e tem comunicação com o resto do mundo.
Só não comece uma guerra com outra caverna, especialmente se a população da sua for menor.
Em um comentário off: isso ai João, to com tigo e não abro!

Vander disse...

O tema iniciado no último post e que veio até esse é muito interessante. Eu sabia que o assunto poderia ir muito longe. Então preparei um "Royal Street Flush" argumentativo para concluir o assunto, de tal maneira que fosse como uma sentença irrevogável e irrecorrível. Que surpresa ao ver esse post: você também tem um "Royal Street Flush", hehe. No caso não importa muito de que naipe são nossas cartas argumentativas. Pessoas como você, João e Helder não me decepcionam em uma conversa, esta sempre rende bons frutos reflexivos.

Mas vamos lá a esse tema:

De fato, há uma cultura mundial generalizada em coisas superficiais. Isso é mais intenso em países como o
Brasil. O esforço, por exemplo, não é valorizado como deveria. Curioso falar sobre isso, já que uma das minhas 2 maiores teorias sociais têm como o esforço um dos seus alicerces. Outro alicerce é a estratégia, e o nome da Teoria é "Teoria do Rendimento-Desenvolvimento Sustentável".

Fiquei surpreso ao ver em seu post outra teoria social que inventei: "Todos vivemos em nossas cavernas". Exatamente. A diferença é que em minha teoria eu chamo a caverna de "universo". Todos nós, ou seja, cada pessoa tem o seu universo. O seu universo no que diz respeito ao caráter, valores, opiniões, vontades, conhecimento, sabedoria, etc. Cada universo se comunica pelos outros via inúmeras dimensões, sendo a conversa, o debate, o diálogo, uma dessas dimensões. Ao longo de nossa jornada por aqui, de vez em quando encontramos "universos paralelos", ou seja, pessoas que têm algo muito forte em comum conosco. Isso pode ser um gosto pelas artes, pelo conhecimento, por computação, por literatura, por política, por filosofia, por direito, ou por qualquer atributo inerente ao ser humano.

Esse post se assemelha a outra teoria social que inventei. Mas só falo dessa teoria pessoalmente, hehe. Aliás, isso de estar dentro ou estar fora da caverna é de fato muito relativo. Em segundos posso falar caso em que é melhor estar dentro da caverna ou fora dela. Se estamos no espaço sideral, a caverna chamada "nave espacial" é muito melhor do que todo o universo inóspito e inabitável. Se a caverna é um vulcão ativo, é muito melhor estar fora dela. E vou ainda mais longe: Vejamos o filme "Matrix", por exemplo: sendo a Matrix a caverna, não é complicado falar onde é melhor estar? Isso depende de concepções intrínsecas a cada pessoa, o que cada um tem como valores e opiniões.

Concordo com o João, existe uma superficialidade na comunicação à distância. Ela funciona como um paliativo para a falta de tempo ou de disposição de conversarmos pessoalmente como faziam os cidadãos na Grécia Antiga. Eu estava falando com um amigo meu chamado Lucas sobre algo parecido: há uma tendência a homogeneização de comportamento hoje em dia. Isso tem muito a ver com o post também. Espero que cada um de nós saiba valorizar as coisas realmente importantes ao ser humano, independente de opiniões. Como disse um filósofo russo "cada ser humano é único em sua singularidade". Se a esse conceito acrescentamos o fato de que as artes são polissêmicas, então entenderemos o valor positivo de cada ser humano em si, e de toda a sociedade como um todo.