Professores


Aluno - Eu havia falado no final da última aula que faria a minha apresentação essa terça. Apareci no horário da aula, procurei na sala e no laboratório eclipse diversas vezes entre 8:00 e 9 e pouco e não achei ninguém. Pelos comentários no fórum aparentemente tiveram apresentações às 10, fora do horário. Subentendi errado que seria no horário da aula?

Professor - Acho que você subentendeu e não nos avisou por email que tinha subentendido desse jeito...


Este professor assusta quase todos os seus alunos com sua falta de tato, e principalmente sua incapacidade de admitir uma falha. Esse é o menor dos inúmeros exemplos que eu poderia citar, muitos de uma grosseria inacreditável, mas não vale a pena, por que o objetivo deste post é outro.

Tive um outro professor, que poderia chamar de mestre. Este mostrou de forma clara e objetiva como a intuição pode e deve ser utilizada para a solução de todo o tipo de problemas. Instinto... Ele se referia ao 'cheiro' dos problemas. Essa 'técnica' sempre me foi muito valiosa, e é aplicada em praticamente tudo que eu faço. Foi meu professor ao longo dos dois primeiros anos de colégio, mas continuou a me orientar ao longo do terceiro, durante os intervalos.
Professor exemplar. Tanto alunos 'humanos', que não gostavam tanto de matemática, quanto os 'exatos' aprendiam com ele. Devo a este mestre parte vital da minha formação, e acho que muitos outros alunos também.

Adivinhe qual destes dois professores foi demitido sumariamente esta semana?

TED

Faz pouco mais de uma semana que um grande amigo me indicou um vídeo de uma palestra em uma conferência muito curiosa chamada TED: Ideas worth spreading. Cada palestra se parece mais com uma conversa, uma exposição de uma idéia. Nada técnico ou que exija um conhecimento prévio sobre tópicos, mas idéias profundas, de qualquer forma.

A primeira conversa era de um holandês chamado Theo Jansen, sobre uma estrutura que ele inventou. Basicamente uma segunda 'roda', só que com patas. Muito engenhoso, e realmente incrível ver o que ele fez com alguns tubos e barbante.. MacGyver ainda tem um longo caminho a percorrer! São 'criaturas' que obtêm sua energia do vento, andam pela praia sozinhas e até mesmo possuem um cérebro primitivo. Tudo com pouco mais que tubos e barbante. Impressionante.

http://www.youtube.com/watch?v=b694exl_oZo

Uma segunda conversa foi um pouco mais fundo. Larry Lessig fala sobre como o mundo de hoje vai contra o bom senso, e como as leis estão estrangulando a criatividade de forma obviamente absurda. Em 20 minutos excelentes argumentos são exibidos, baseados em história, mostrando como é inevitável que a cultura feita online, por pessoas comuns, deve ser legalizada. Acho que antes não tinha pensado em argumentos para sustentar este fato óbvio, pois a cultura feita por amadores é algo bem encrustado na minha vida (mas isso é outro post).

http://www.youtube.com/watch?v=7Q25-S7jzgs

Quem me conhece sabe que eu tenho uma fé bastante razoável na ciência (isso é outro post, novidades da saga espiritual). Alguns devem também saber que eu tenho o costume de ler sobre astronomia. Esta área do conhecimento possui uma visão única, devido à sua imensa escala, e essa visão quando utilizada para olhar para o mundo em que vivemos gera idéias fantásticas. Os primeiros 10 minutos desta conversa podem parecer enfadonhos para quem não acha física interessante, mas tudo leva a uma conclusão muito humana.

http://www.ted.com/index.php/talks/view/id/42

Essas foram apenas algumas das boas conversas que me chamaram a atenção. Existem pessoas neste planeta interessadas em trocar idéias lúcidas sobre assuntos de importância global, livres de interesses regionais. É absurdo que a essa altura da nossa história não exista uma noção clara de humanidade, que vivemos todos no mesmo planeta e temos o poder de mudá-lo, mesmo sem querer.

Choque ao ver um vídeo, lamentavelmente do TED, com Richard Dawkins. Eu vi um humano não apenas pregando o ateísmo, mas propondo que ateístas se unam para dominar o mundo para salvá-lo dos religiosos. Como idéias tão fantásticas podem dividir o palco com uma idéia tão demente? Sim, partidos políticos nos EUA usam religião para conseguir votos, e isso acabou gerando essa situação cômica (para não dizer trágica) da volta do criacionismo. Essa situação é ridícula, e não vou desperdiçar mais caracteres falando sobre isso. Bom que exista um palco disposto a aceitar qualquer um com idéias que pelo menos provoquem.

http://www.ted.com/talks/view/id/113

Não sei se você terá paciência de assistir um destes vídeos. Eu também recebo uns 10 vídeos por dia, nesta febre de youtube. Alguns deles são bons, entretanto.

Aproveitando tantos vídeos com idéias boas (ok, teve um muito ruim, mas tão ruim que provoca idéias boas), o link abaixo mostra uma peça musical muito interessante (e alternativa). Se você gosta de música diferente, assista.

http://www.youtube.com/watch?v=f2bcPIXl8kc

Parte do mundo

Nos últimos tempos vieram em mente alguns textos que eu gostaria de publicar neste blog. Claro que não 'teeextos', apenas mais uma daquelas idéias que eu gosto de compartilhar com quem quer que esteja interessado em perder alguns minutos para ler esta página.

A partir de 2000 eu criei o hábito de me manter sempre bem informado. Inicialmente tinha até uma certa sensação de que eu fazia parte, poderia mudar o mundo à minha volta, que eu poderia fazer isso desde que me mantivesse bem informado, aproveitasse oportunidades para fazê-lo. Acompanhava com atenção movimentações políticas em Brasília, com uma especial atenção em política internacional.
Juntamente com o estudo da história (tanto tradicional quando das artes) veio a noção de que os acontecimentos são cíclicos. Tendências ideológicas, opiniões, modas... parecem ser muitas diferentes, mas no fundo são apenas algumas poucas com uma roupagem diferente. Idéias não são imutáveis, assumem aparências diferentes em cada época (e lugar). Junto com a noção dos ciclos, surge a impressão de que tudo não passa de uma eterna repetição. Quando leio o jornais e revistas, tenho a nítida impressão de que eu já li aquelas matérias antes (e já sei como vão acabar os escândalos da vez).
Primeiro veio aquela sensação boa de quando se descobre algo de razoável profundidade, uma revelação. Depois torna-se rotina. Para que eu ainda leio isso? É sempre igual! Ao longo do tempo eu fui me desligando. Vez por outra ouço ecos distantes do que está acontecendo, vejo que ainda é a mesma história com nomes diferentes.
Depois uma sensação ainda mais profunda de desligamento... Vivo em um mundo à parte? Dificilmente vejo crianças, mas sei que elas existem. Vivo em uma cidade com gravíssimos problemas sociais, mas raramente vejo reflexos disso.
Cresci vendo a miséria à minha volta. Sei que é triste, mas a convivência tornou-me apático. É incrivelmente raro eu me chocar com a miséria, com a violência. Nos anos de colégio no Rio de Janeiro aprendi a viver lado a lado com isso, com o mínimo possível de interferência na minha vida. Quando me mudei para São Paulo, senti-me livre (em parte, claro) da violência. Quando vou para o Rio fico em constante paranóia. Em São Paulo a separação social é também espacial, e com isso senti-me cada vez mais longe deste mundo que aparecia na TV

Nos últimos tempos eu vinha percebendo este distanciamento. Eu, que sempre gostei de observar tão atentamente o mundo à minha volta, estava cansado de ver sempre a mesma coisa. Dificilmente procurava me informar sobre o que acontecia à minha volta, e enxergava apenas o que era de meu interesse. Eu tinha noção de que esta postura teria que acabar em algum momento, e que o isolamento era apenas uma ilusão, que eu faço parte do mundo, mesmo que eu não o enxergue.

Mas eram apenas idéias que vinham enquanto eu dirigia para lá e para cá no meu carro, ouvindo música clássica, enquanto dirigia por avenidas arborizadas, bem cuidadas, com policiamento. Não realmente me preocupavam, e eu as mantive para mim, apenas cogitando colocá-las no blog algum dia.

Na noite desta quinta, dia 29 de novembro, a cortina de ignorância consciente que eu mantive à minha volta foi arrancada. Ainda tenho muito a pensar, mas uma coisa é certa: o nômade voltará a observar o mundo de perto.