Nos últimos tempos vieram em mente alguns textos que eu gostaria de publicar neste blog. Claro que não 'teeextos', apenas mais uma daquelas idéias que eu gosto de compartilhar com quem quer que esteja interessado em perder alguns minutos para ler esta página.
A partir de 2000 eu criei o hábito de me manter sempre bem informado. Inicialmente tinha até uma certa sensação de que eu fazia parte, poderia mudar o mundo à minha volta, que eu poderia fazer isso desde que me mantivesse bem informado, aproveitasse oportunidades para fazê-lo. Acompanhava com atenção movimentações políticas em Brasília, com uma especial atenção em política internacional.
Juntamente com o estudo da história (tanto tradicional quando das artes) veio a noção de que os acontecimentos são cíclicos. Tendências ideológicas, opiniões, modas... parecem ser muitas diferentes, mas no fundo são apenas algumas poucas com uma roupagem diferente. Idéias não são imutáveis, assumem aparências diferentes em cada época (e lugar). Junto com a noção dos ciclos, surge a impressão de que tudo não passa de uma eterna repetição. Quando leio o jornais e revistas, tenho a nítida impressão de que eu já li aquelas matérias antes (e já sei como vão acabar os escândalos da vez).
Primeiro veio aquela sensação boa de quando se descobre algo de razoável profundidade, uma revelação. Depois torna-se rotina. Para que eu ainda leio isso? É sempre igual! Ao longo do tempo eu fui me desligando. Vez por outra ouço ecos distantes do que está acontecendo, vejo que ainda é a mesma história com nomes diferentes.
Depois uma sensação ainda mais profunda de desligamento... Vivo em um mundo à parte? Dificilmente vejo crianças, mas sei que elas existem. Vivo em uma cidade com gravíssimos problemas sociais, mas raramente vejo reflexos disso.
Cresci vendo a miséria à minha volta. Sei que é triste, mas a convivência tornou-me apático. É incrivelmente raro eu me chocar com a miséria, com a violência. Nos anos de colégio no Rio de Janeiro aprendi a viver lado a lado com isso, com o mínimo possível de interferência na minha vida. Quando me mudei para São Paulo, senti-me livre (em parte, claro) da violência. Quando vou para o Rio fico em constante paranóia. Em São Paulo a separação social é também espacial, e com isso senti-me cada vez mais longe deste mundo que aparecia na TV
Nos últimos tempos eu vinha percebendo este distanciamento. Eu, que sempre gostei de observar tão atentamente o mundo à minha volta, estava cansado de ver sempre a mesma coisa. Dificilmente procurava me informar sobre o que acontecia à minha volta, e enxergava apenas o que era de meu interesse. Eu tinha noção de que esta postura teria que acabar em algum momento, e que o isolamento era apenas uma ilusão, que eu faço parte do mundo, mesmo que eu não o enxergue.
Mas eram apenas idéias que vinham enquanto eu dirigia para lá e para cá no meu carro, ouvindo música clássica, enquanto dirigia por avenidas arborizadas, bem cuidadas, com policiamento. Não realmente me preocupavam, e eu as mantive para mim, apenas cogitando colocá-las no blog algum dia.
Na noite desta quinta, dia 29 de novembro, a cortina de ignorância consciente que eu mantive à minha volta foi arrancada. Ainda tenho muito a pensar, mas uma coisa é certa: o nômade voltará a observar o mundo de perto.